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Artigos 14/04/2010
Avanço tecnológico e escrita
Cybele Maria Martins e Ceres Maria Martins Borelli

O avanço tecnológico vem interferindo nas atividades comunicativas humanas fazendo surgir novas formas de uso da língua nas quais, algumas vezes, são usados textos híbridos que concretizam características de modalidades diversas, tidas como prejudiciais quando detectadas em contextos não apropriados.

Se depois da invenção do telefone, houve, em geral, uma redução de escrita e de leitura em atividades do cotidiano, pode-se dizer que, em tempos de Internet, aumentou ainda mais o número de produtores de texto/redatores que se ocupam da rede para fins profissionais, comerciais e particulares com uso de e-mails, chats, ICQ, MIRC, Orkut, MSN, entre outros. O que incentiva os usuários dessas formas de comunicação por escrito são os aspectos inovadores que dispensam lápis e papel trocados por tecla e por tela.

Com essa inovação relativa à comunicação escrita, surgiram muitos fatores novos. A mensagem, por exemplo, se multiplica e pode ser enviada para um número indefinido de leitores em tempo praticamente simultâneo e independente de espaço. Daí a rapidez ser um diferencial para fluir a comunicação que, mesmo sendo escrita, com frequência se aproxima da fala em alguns gêneros limítrofes usados no meio eletrônico como no MSN. Construções mistas e híbridas não são exclusivas do suporte, pois também ocorrem em outras situações de uso da língua com a interação de modalidades como em uma aula em que o professor faz a exposição oral de um conteúdo pesquisado em textos escritos e propõe ao aluno a (re)produção de um texto escrito a partir do tema abordado oralmente.

Na comunicação via Internet, a fim de ter mais agilidade, informalidade e rapidez na transmissão de mensagens, lança-se mão de recursos tais como: abreviações, símbolos sonoros e ícones (emoticons), dispensando-se até sinais diacríticos quando se trata de comunicação informal como em salas de bate-papo na forma de um diálogo em tempo real sem compartilhar o mesmo espaço.

As abreviações podem parecer novidades o que, para muitos, até causa estranheza, mas convém lembrar que são utilizadas ao se fazer anotações em aulas, ao anotar recados passados por telefone. É um recurso que, em outro suporte, já significou economia, não apenas de tempo, mas de gastos, pois nos pergaminhos poupavam-se espaços com uma escrita abreviada por ser material dispendioso. Hoje também representam economia de tempo e de espaço.

Quanto a ‘emoticons’, é só lembrar a fase pictórica da escrita no período inicial que se valia de desenhos, de figuras que representavam objetos da realidade e deles se deduzia o sentido da mensagem. Em inscrições antigas, aparecem de forma mais elaborada como na cultura asteca e, recentemente, em histórias em quadrinhos. As línguas passaram dessa fase pictórica a outras chegando à forma escrita atual como a da língua portuguesa o que evidencia, de certa forma, que isso não prejudica o desenvolvimento linguístico.

Assim, nem desenhos, nem abreviações de palavras, entre outros recursos, impediram que as línguas deixassem de evoluir e de seguir seu curso. As comunicações escritas, por exemplo em salas de bate-papo, não apresentam inovações ou criações materializadas de uma única forma além de não serem usadas igualmente por todos os usuários do meio; daí, não se configurarem como um sistema organizado, embora alguns recursos sejam recorrentes nas abreviações e nos desenhos. Deste modo, não se pode considerar um código como o é o lingüístico, porque não são recursos sistematizados, mas formas mutáveis e inconstantes, que não são socializadas e aceitas como representativas da comunicação por toda uma comunidade linguística.

Então, se de um lado muitos pais e professores criticam a nova escrita em meios virtuais, por outro lado ela pode ser vista como uma forma inovadora de se manifestar por escrito requerendo criatividade para melhor expressão. O problema é usá-la para redigir atividades escolares ou em quaisquer outros textos produzidos fora de contexto virtual e de suportes apropriados, o que deve ser observado pelos professores com reforço no emprego adequado de cada uma. Para quem foi bem alfabetizado, não há problemas uma vez que ‘erros de ortografia’ nem sempre decorrem devido à Internet, mas devido a falhas de aprendizagem na escola.

Na verdade, a língua está em permanente processo de evolução e de mudança o que não interfere substancialmente em sua unidade. Ela acompanha a maneira como as sociedades vivem e como convivem com a tecnologia e com inovações; isto vai refletir em seus hábitos e em suas peculiaridades. Em outras palavras, não sofre degeneração ou progresso: sofre mudança, passando de um estado a outro de organização sem que a fase anterior deixe de existir. E o aparecimento de internetês surge como uma variação lingüística que acompanha a renovação social.

Assim, o emprego diferenciado da língua na Internet não é suficiente para alterar, por si só, os destinos dela, mas leva a repensar a comunicação, a relação entre fala e escrita e a considerar modos mistos e heterogêneos de construção textual influenciados pelo avanço tecnológico com novos suportes e novos gêneros discursivos. Há, então, outros modelos de materialização da expressão escrita com características próprias e bem definidas. Reconhecer a utilização de um gênero conforme função, propósito, referente, receptor, contexto é saber usar adequadamente a língua qualquer que seja a modalidade.


Cybele Maria Martins e Ceres Maria Martins Borelli são especialistas em Letras e em Pedagogia e docentes no curso de Letras da Unicastelo campus Descalvado



   
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