Professores comentam sobre dificuldades de alunos quanto ao uso da língua, baseando-se, em geral, em produções escritas e mais centrados na ortografia. Para muitos: “Os alunos não sabem português” ou “Eles não sabem ler e escrever”,... Por outro lado, o aluno sofre certo preconceito e segregação quanto ao seu modo de falar e reage dizendo: “Odeio a gramática!”, “Para que aprender conjugação verbal?”, ou ainda: “E análise sintática, onde vou usar isso?”
Essas frases, comumente utilizadas por docentes e estudantes, exprimem uma postura e uma visão estereotipada em relação ao aprendizado da língua portuguesa que geralmente se volta apenas ao padrão culto e à modalidade escrita, desconsiderando a oral e os empregos reais do cotidiano. Há, também, muita preocupação com a ortografia correta conforme consta nos decretos, nas reformas, nos acordos. Mas é na modalidade oral que se pode perceber com mais nitidez mudanças e variações que se processam na língua, um instrumento de comunicação vivo, dinâmico que se transforma acompanhando as mudanças sociais e atendendo as necessidades de expressão coerentes com o tempo e o lugar.
Quando a criança vai à escola, inicia seu processo de aprendizagem da língua portuguesa com base na variante padrão, porém o que não se considera é que ela já possui um prévio conhecimento que lhe permite comunicar-se através da fala. Na sala de aula, muitas vezes, a criança começa a aprender uma “língua estranha”, que é diferente daquela que utiliza em âmbito familiar: trata-se da norma escolar padrão, reconhecida pela escola como a correta.
Percebe-se, então, uma diferença entre a língua que a criança aprende na escola e aquela que, de fato, domina e esta, muitas vezes, é ignorada pelos professores por não corresponder às regras impostas pela forma ideal. Por isso, o aluno é constantemente corrigido, reprimido, penalizado para que, de correção em correção, fale e escreva de acordo com o que é exigido em substituição à variedade de seu meio.
A língua, que deveria ser um instrumento de inserção e de interação social, favorecendo ao indivíduo o contato com a cultura e com a cidadania, torna-se, deste modo, uma ferramenta de exclusão e de marginalização.
Embora a tradição educacional não considere a existência de variantes linguísticas e não aceite a não ser as da norma culta, o português está em constante modificação e recebe muitas influências decorrentes de diversos fatores tanto internos quanto externos. O Brasil é um país com diversidade de cultura e essa pluralidade pode ser percebida também na língua que pode sofrer mudanças de acordo com o tempo, com o espaço, com o nível cultural e com a região em que se encontra o falante; daí a ocorrência de variação.
Observa-se, assim, uma intrínseca relação entre linguagem e sociedade, pois, nas mais variadas épocas, o homem utilizou a língua como uma forma de comunicação: nos primórdios, apenas a comunicação oral e, depois, também a escrita. Essas duas modalidades devem ser consideradas no ensino, assim como as inúmeras variantes utilizadas pelos falantes.
Por isso, o processo educacional deve manter contato com a variedade cultural contemporânea para que a educação seja eficaz, não gerando exclusões para não incorrer em discriminação linguística o que requer uma mudança de atitudes por parte dos educadores, como consta nos Parâmetros Curriculares Nacionais.
Por essa razão, é preciso traçar novas estratégias para o ensino de língua portuguesa a fim de que este se torne mais próximo da realidade dos alunos com vista à melhoria de aprendizagem. Com práticas significativas, é possível incluir alunos provenientes das classes sociais menos favorecidas, fazendo com eles deixem de se sentir ‘estrangeiros’ em relação ao código utilizado e exigido pela escola, não enfrentando fracassos e, com isso, conseguindo participar de forma satisfatória das práticas sociais que demandam conhecimentos diversos, inclusive linguísticos.
É preciso deixar claro que a inclusão de variações nas práticas pedagógicas não contraria as normas da gramática; o processo de ensino-aprendizagem não pode ser resumido somente a regras e preceitos, mas é preciso que se busque propiciar ao aluno uma verdadeira experiência com sua língua materna e que, a partir dela, possa ser agente transformador na sociedade. O ensino não pode resumir-se a uma substituição dos conhecimentos linguísticos que o aluno traz à escola; deve, isto sim, representar acréscimo e ampliação da bagagem que já é de seu uso no cotidiano.
Portanto os professores de língua portuguesa precisam compreender que ela, um instrumento de comunicação e expressão, não é empregada de modo homogêneo por todos os seus falantes, mas está em constante mudança como a sociedade à qual serve. Assim, o estudo sobre variações linguísticas é importante para o docente ao propor estratégias de ensino adequadas, com especial atenção ao tratamento delas quando em uso nas produções orais e escritas dos alunos.
Ceres Maria Martins Borelli é especialista em Letras e em Pedagogia, mestre em Lingüística e docente dos cursos de Letras, Administração, Química e Educação Física da Unicastelo campus Descalvado. Participou do texto, o egresso Fabiano D. Idem.