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Artigos 17/06/2010
Educação: o equilíbrio entre formação e informação
Marco Antonio Pratta

Desde o mundo antigo, havia uma clara distinção entre as pessoas que trabalhavam com a formação do jovem, futuro cidadão, e aqueles que trabalhavam com as informações necessárias para a vida cotidiana. Nos grupos numerosos, na Grécia, por exemplo, sempre havia um paedagogo, ou seja, alguém que cuidava das crianças, dos paidós, educando-as de acordo com os valores e as crenças da época. Geralmente era uma pessoa mais idosa, experiente. Por outro lado, havia também o grammatistés, aquele que trabalhava com os grammatas, com os sinais gráficos que constituíam a escrita da época. O paedagogo educava; o grammatistés ensinava. O paedagogo formava o caráter e a conduta daquele que, futuramente, seria um membro ativo da comunidade; o grammatistés ensinava o instrumental, principalmente, da língua escrita e da língua falada.

Em tempos gregos mais antigos, era fundamental que o cidadão soubesse manejar as armas, andar a cavalo, ser ágil com o seu próprio corpo. Não era só uma questão de força física: o bom guerreiro, além de corajoso e destemido, era honrado, ou seja, era revestido de alguns valores, tais como a dignidade, o respeito pelo outro e, acima de tudo, o senso de justiça. Esse equilíbrio entre a força física e os valores cívicos seria alcançado através do desenvolvimento de algumas habilidades artísticas, como a música, por exemplo. Dessa forma, o paedagogo formava o jovem não só educando-o nas artes marciais e na música, mas moldando-lhe o caráter, melhorando-o sempre.

Quanto ao grammatistés, ele estava muito mais interessado em fornecer subsídios que levassem o cidadão a uma vida econômica ativa, particularmente pensando no fato da Grécia ser formada, na época, por comunidades pequenas, a beira-mar, em sua maioria, que viviam da pesca, da produção de vinho e de azeite e do pequeno comércio. O acesso às línguas estrangeiras, às noções matemáticas e conhecimentos das culturas vizinhas eram condições para a eficácia nos negócios e o sucesso econômico.
Quando, a partir do século VI a. C. a Grécia viveu uma fase de grande desenvolvimento econômico, lentamente o paedagogo perdeu um pouco a sua importância social. O surgimento de uma sociedade mais cosmopolita, com uma economia monetária e com negócios fora do próprio território, estimulou o desenvolvimento de escolas tais como se conhece atualmente. Isso é tão verdadeiro que, ao longo de toda a História Antiga, era comum essas escolas serem chamadas, independentemente da sua localização geográfica, de “escolas gregas”. O paedagogo desapareceu e, gradativamente, o grammatistés ganhou espaço; o professor, enfim, tal como se conhece hoje.

Em todo o mundo ocidental a tradição grega do magistério foi mantida, particularmente com a ascensão cristã, cujas raízes também estavam relacionadas com o mundo grego. Nos dias atuais, com o predomínio absoluto da cultura visual, somada a uma gama de informações infinitas, fornecida, em especial, pela rede mundial de computadores, a superficialidade das informações e as naturais dificuldades de assimilação e relacionamento entre tantas informações criaram um novo contexto na realidade escolar. O aluno, muitas vezes, apresenta dificuldade em relacionar um universo tão vasto de informações. O próprio sistema de ingresso dos alunos no Ensino Superior, em que pesem todas as limitações da sua estrutura, admite que a principal dificuldade dos alunos está consolidada na interpretação dos dados e na relação entre as informações. Nos grandes sistemas de ensino, aliás, essa realidade tem justificado o aumento das aulas em Ciências Humanas, particularmente em Literatura, Redação, História e Geografia. O aluno que possui o hábito da leitura apresenta vantagens em relação àqueles que apenas tentam memorizar ou reter informações.

Nessa diversidade, o papel do pedagogo, aquele que cuida e acompanha a criança, o paidós, é cada vez maior. Foi-se o tempo em que o curso de Pedagogia era voltado, quase que exclusivamente, para a administração escolar.


Marco Antonio Pratta é doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e professor dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Unicastelo campus Descalvado.



   
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