Nas últimas semanas do ano de 2009 e no início de 2010, o valor pago pelo álcool combustível assustou quem foi abastecer seu carro. Em 2009, o preço do etanol subiu mais de 19%, enquanto o da gasolina aumentou apenas 2%. Isto desperta cada vez mais a discução sobre a relação de preços etanol e gasolina e de como devemos fazer a escolha mais econômica.
Há muitos anos este comparativo não ocorria no Brasil, onde o consumo de etanol já supera o de gasolina desde março de 2008. A Engenheira Agrônoma Gisele Herbst Vazquez, professora do curso de Agronomia e coordenadora do curso de pós-graduação em “Produção e Tecnologia da Cana-de-Açúcar”, explica que o fenômeno se deve a liberação do preço do álcool, que agora segue apenas as tendências do mercado.
Unicastelo - Como explicar essa alta tão acintosa do preço do álcool em relação ao da gasolina?
Gisele Vazquez - No começo da década de 1990 teve início o processo de desregulamentação dos preços dos produtos do setor sucroalcooleiro através da liberação de seus preços. Neste contexto, os preços do etanol e do açúcar passaram a ser determinados de acordo com as regras de livre mercado. Assim, o preço segue a tendência que o mercado lhe impõe. Analistas afirmam que o principal fator que explica a alta recente do etanol foi a crise financeira global, que atingiu duramente o setor. No primeiro semestre de 2009, a falta de liquidez no mercado de crédito forçou boa parte das empresas a desovarem grandes volumes de etanol a preços fortemente deprimidos, abaixo dos custos de produção, para poderem se capitalizar. Isso fez o consumo explodir - quase 30% de aumento em relação ao mesmo período em 2008. Aliado ao excesso de oferta de etanol, a ausência de políticas de estocagem garantidora também contribuiu. Além disso, o segundo semestre de 2009 foi de muita chuva o que fez com que as usinas trabalhassem menos dias e dificultasse a colheita e, consequentemente, a oferta de cana para o processamento, comprometendo a produção prevista e os estoques para a entressafra.
Unicastelo - Isto teve algum benefício para o setor?
Gisele Vazquez - Há um amplo consenso de que essa desregulamentação levou a ganhos de eficiência e forte redução de custos de produção, beneficiando toda a sociedade de uma forma mais indireta. A impressão ruim é porque o que sentimos primeiro é o preço na bomba de combustível. Em nosso modo de ver esta situação de preços é passageira e não deve comprometer os benefícios de termos nossa frota de carros movida com uma fonte limpa de energia renovável, geradora de mais de 450 mil empregos diretos no país e que desde 1975 já permitiu uma redução na emissão de 600 milhões de toneladas de CO2 contribuindo contra o aquecimento global. Além disso, a cana é uma possível geradora de energia elétrica.
Unicastelo - Com este novo formato de mercado, como você acredita que ficará a situação do etanol em relação à frota nacional?
Gisele Vazquez - Atualmente, a frota nacional conta com 55% dos veículos movidos à gasolina, 7% GNV, 7% etanol, e 31% flex-fuel. Considerando-se para 2015 um aumento médio anual previsto de 9% na produção automobilística, mais especificamente para os automóveis flex-fuel, teremos uma frota nacional composta de 34% dos veículos leves movidos à gasolina, 4% a GNV, 4% a etanol e 58% flex-fuel. Com este cenário, o consumo de combustíveis no país deverá ficar centrado no etanol hidratado, com 64%, seguido pela gasolina tipo A, com 27%, e, finalmente, pelo etanol anidro como aditivo à gasolina com 9%.
Unicastelo - Há como prever se a alta do etanol deve manter o mesmo ritmo de 2009?
Gisele Vazquez - Hoje, 88% das vendas de veículos novos são flex-fuel, o que possibilita que cada um escolha o tipo de combustível para seu carro de acordo com o preço ou questões técnicas ou ecológicas. Com isto o consumidor pode interferir reduzindo o consumo e de certa forma forçando os preços do etanol para baixo. Porém, no final da atual safra alguns fatores produziram uma alta do preço do etanol. O primeiro fator, muito comentado, é a alta do preço do açúcar no mercado mundial, os maiores em 29 anos, causada por quebras de safra nos principais países produtores, dentre eles Brasil e Índia. Com isto, ficou mais rentável transformar a cana colhida em energia que alimenta os humanos. De fato, as usinas têm alguma flexibilidade para optar pela produção de açúcar ou etanol, porém a "migração" é limitada. Precisamos entender que o etanol, por tratar-se de um combustível de origem vegetal, está sujeito às condições de excesso de chuvas ou secas e outras variações climáticas. Além disso, encontra resistência em países europeus e uma barreira nos EUA devido ao etanol proveniente do milho. Porém, quando vemos notícias envolvendo grandes empresas com interesse no mercado sucroalcooleiro percebemos a atratividade do setor.